A partir de 14 de fevereiro de 2025, a permissão da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para a homologação de dispositivos híbridos que combinam conexões celulares e satelitais representa um marco no Brasil. O Ato nº 2.105 estabeleceu a certificação de tecnologias como NB-NTN, RedCap e LTE Cat 1bis, todas fazendo parte do crescente ecossistema da Internet das Coisas (IoT). Desde 13 de agosto de 2025, o uso de rastreadores híbridos deixou de ser uma exceção para se tornar uma norma.
Essa mudança é crucial, especialmente considerando que cerca de 80% a 82% de várias regiões no Brasil ainda enfrentam deficiências na cobertura celular. Dados coletados pela Anatel e pela GSMA revelam que, em locais sem sinal, a comunicação entre rastreadores e veículos, cargas e maquinários é interrompida. Recentemente, a empresa espanhola Sateliot, em conjunto com o CPQD, demonstrou a funcionalidade de dispositivos NB-IoT conectando-se a satélites em baixa órbita, mesmo em áreas sem sinal, inicialmente voltados para o rastreamento de gado.
O campo do rastreamento está passando por um avanço notável, exemplificado pelo novo produto AssetHawk, desenvolvido pela australiana Myriota, que atende a contêineres e ativos que não possuem fonte de energia própria. A parceria entre a BWS IoT, uma empresa brasileira, e a Sateliot tem como objetivo criar soluções híbridas focadas no agronegócio e no transporte, enquanto a norueguesa Nordic Semiconductor disponibiliza módulos que integram conectividade celular e satelital, evidenciando a crescente adoção do uso de satélites como uma norma.
André Luiz Ota, CEO da Ikonn, que fornece soluções de engenharia em rastreamento, afirma que a verdadeira dificuldade se encontra na adequação do software utilizado para processar as informações. Ele destaca: “o NB-IoT NTN está revolucionando o panorama no Brasil, mas o mercado continua a subestimar essa transformação. A conectividade via satélite, antes considerada um privilégio para grandes frotas, tornará-se uma característica padrão da IoT em grande escala.”
Segundo Ota, as dificuldades relativas ao hardware e ao lançamento de constelações de satélites de baixa órbita estão se dissipando. “Embora os dispositivos consigam relatar sua localização em áreas remotas, muitos sistemas de rastreamento existentes ainda falham em processar essa enorme quantidade de dados de forma eficaz”, acrescenta.
Gerenciamento de Dados Desorganizados
O CEO da Ikonn explica que a problemática reside na arquitetura das plataformas. Enquanto redes celulares oferecem um fluxo organizado de dados, as informações provenientes de satélites podem ser entregues de forma atrasada ou fora da ordem prevista devido às limitações de buffer. Caso a infraestrutura não suporte adequadamente, pacotes de dados atrasados podem gerar alarmes falsos ou prejudicar a inteligência preditiva. O especialista sugere a implementação de um motor de regras assíncrono que consiga reorganizar dados geográficos e eventos em questão de milissegundos.
Novas Metodologias de Cobrança no Rastreamento
A expansão da conectividade híbrida também impactará a forma como as centrais de rastreamento realizam suas cobranças. Como a transmissão de dados via satélite normalmente apresenta custos superiores, Ota indica que a inteligência deve ser movida para a borda da rede, conhecida como edge computing. “O sistema precisa ser projetado para enviar apenas alertas críticos via satélite, enquanto mantém a telemetria registrada para ser transmitida assim que a conexão terrestre for restabelecida”, esclarece. Esta mudança na forma de cobrança permitirá oferecer serviços de alta disponibilidade, possibilitando a justificativa de preços mais elevados.
Ota destaca que setores como o agronegócio e cadeia do frio serão profundamente afetados por essa inovação. Por exemplo, o transporte de defensivos agrícolas em áreas sem cobertura tem demorado a responder a incidentes. Com a tecnologia NB-IoT NTN, é possível detectar desvios rapidamente e alertar via satélite, possibilitando uma ação imediata.
No futuro próximo, Ota acredita que o foco das centrais de rastreamento deve ser a transição de sistemas legados para plataformas orientadas a microsserviços, que possibilitem operações nativas com dados híbridos. “Não se trata apenas de atualizações pontuais em sistemas antigos, mas de assegurar uma soberania de dados real por meio de uma infraestrutura nova.” Ele ressalta que a padronização do 3GPP pode reduzir os custos de hardware satelital, mudando a competitividade do setor com foco em soluções de software.
A intersecção entre regulamentações mais permissivas, testes exitosos no Brasil e a chegada de novos dispositivos híbridos indica que a conectividade via satélite será parte integrante das operações de frotas, rebanhos e cargas rastreadas. Assim, as centrais de rastreamento devem estar preparadas para enfrentar a complexidade da gestão simultânea de múltiplas fontes de dados, garantindo permanência e confiabilidade.
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