Com as mudanças no governo em janeiro, o Instituto MBCBrasil propõe que o biometano se torne uma prioridade para o Estado, visando um planejamento a longo prazo que vá além das trocas de mandatos. O Brasil está bem posicionado, devido à sua robusta agroindústria e uma vasta quantidade de resíduos passíveis de serem transformados em energia. Um estudo internacional chamado From Waste to Wheels – Turning Organic Waste into Renewable Fuel for Transport, realizado por instituições renomadas como a USP e o Instituto Mauá de Tecnologia, reforça essa tese.
Atualmente, o biometano é uma realidade em cerca de 40 países e é utilizado em transporte em quase 30 mercados. No Brasil, existem mais de 755 instalações de biogás, com cerca de 21 usinas de biometano operando e outras 47 em fase de desenvolvimento, conforme aponta a ABiogás e a ANP. Empresas como Cocal, Raízen e São Martinho já demonstram a viabilidade comercial dessa transformação de resíduos em combustível. Contudo, o setor de açúcar e energia ainda explora menos de 2% do seu potencial total de biogás, que é de 41 bilhões de m³ anualmente.
A disparidade entre o potencial e a produção não é atribuída à falta de tecnologia. De acordo com José Eduardo Luzzi, presidente do Conselho do Instituto MBCBrasil, há uma necessidade urgente de investimentos em infraestrutura, maior acesso ao financiamento e um ambiente regulatório estável. Ele destaca que políticas públicas adequadas são cruciais para fomentar essas iniciativas.
A proposta governamental está centrada em financiamentos para usinas de biodigestão e regulamentações como a Lei do Combustível do Futuro, que cria o Certificado de Garantia de Origem do Biometano. Esta legislação estabelece uma meta de descarbonização do gás natural de 0,5% até 2026, podendo chegar a 10%. O estudo sugere que créditos de intensidade de carbono sejam associados a compensações pela redução do metano, citando o RenovaBio como referência.
No nível estadual, a discussão foca na distribuição do gás canalizado, baseado na legislação que define essa responsabilidade. O principal desafio é o transporte: menos de 10% do potencial de biometano na América do Sul está localizado a menos de 20 km de gasodutos existentes. Dada a origem dos resíduos – em sua maioria no interior, próximos a usinas, granjas e aterros – a ampliação da rede depende de infraestrutura local e de pontos de fornecimento fora dos centros urbanos. O estudo sugere a criação de corredores de abastecimento que integrem gás comprimido em rotas regionais e gás liquefeito em longas distâncias, além do uso de caminhões em áreas sem dutos, que exigem sinergia efetiva entre distribuidores, produtores e operadores de frota.
Os ganhos ambientais tornaram-se um forte argumento para investimentos: em veículos pesados, o biometano pode reduzir as emissões de gases de efeito estufa em até 90% se comparado ao diesel, levando em conta a origem da biomassa. Estudos indicam que as reduções variam de 45% a 75%, com a possibilidade de atingir um balanço de carbono negativo em determinadas condições, além de ajudar a diminuir os óxidos de nitrogênio e material particulado.
O Instituto MBCBrasil ressalta que o estudo foca nos responsáveis pela tomada de decisões, independentemente do contexto governamental. Luzzi evidencia: “Esse trabalho não representa um plano de negócios para uma instalação em particular, mas sim uma plataforma técnica que busca orientar decisões e integrar o conhecimento brasileiro nas discussões globais sobre descarbonização da mobilidade pesada”.
Fonte: Portal Hortolândia




