Diariamente, cada pessoa no Brasil gera em média entre 0,7 kg a 1,2 kg de lixo, de acordo com o Banco Mundial. A urbanização crescente e o aumento da renda contribuem para a elevação deste número, e uma significativa fração desses resíduos continua sem a devida utilização. O descarte inadequado resulta na liberação de metano, um gás que possui um efeito de aquecimento global muito superior ao do CO₂. Assim, o Brasil está perdendo uma valiosa oportunidade de transformar o desperdício em energia, reintegrando essa matéria orgânica na economia.
A iniciativa do biometano surge como uma solução para esse desafio. O projeto internacional “De Resíduos a Rodas: Transformando Resíduos Orgânicos em Combustível Renovável para Transporte”, coordenado pelo Instituto MBCBrasil, está explorando essa nova abordagem. O processo de digestão anaeróbica transforma resíduos como vinhaça, torta de filtro da cana e dejetos de animais em biogás.
Após passar por um processo de purificação conhecido como upgrading, este biogás se converte em biometano, que é capaz de substituir combustíveis fósseis em veículos de grande porte ou até mesmo ser injetado nas redes de gás natural. Em resumo, aquilo que antes gerava custos de descarte pode, por meio das tecnologias adequadas, tornar-se um ativo valioso.
O setor sucroenergético no Brasil se destaca com um potencial considerável ainda inexplorado, com 345 usinas em operação, das quais cerca de 92% estão situadas na região Centro-Sul. Esse setor possui uma capacidade estimada de produção de biogás de 41,4 bilhões de m³ por ano, mas atualmente, a utilização é inferior a 2% desse total. Em São Paulo, o potencial de geração de biometano varia entre 8,5 e 15,5 bilhões de Nm³ anualmente, segundo o mesmo estudo. A diferença entre o que poderia ser gerado e a realidade atual mostra que a presença de matéria-prima não é suficiente; é imprescindível que haja infraestrutura, investimento e políticas públicas efetivas para viabilizar essa transformação em uma operação comercial.
José Eduardo Luzzi, presidente do conselho do Instituto MBCBrasil, destaca que o conceito de biometano vai além da simples oferta de combustível: “As narrativas mais impactantes não são sobre combustível, mas sobre como transformar passivos ambientais em ativos econômicos”.
Ele explica que o biometano aborda três questões simultaneamente: as mudanças climáticas, as emissões de metano e a eficaz gestão de resíduos. Esse combustível não apenas compete com o diesel, mas também representa um custo por não agir, que é a decomposição de resíduos em aterros e a liberação gratuita de metano.
Além dos efeitos positivos no clima, o biometano traz benefícios diretos para a qualidade do ar. Em comparação ao diesel, ele pode reduzir as emissões de óxidos de nitrogênio (NOx) e partículas poluentes, que são associados a problemas respiratórios. Este aspecto, muitas vezes ignorado nas discussões públicas focadas nas metas globais de carbono, possui impactos diretos na saúde das comunidades localizadas em áreas industriais e nas proximidades de rodovias.
O Brasil apresenta uma conjuntura promissora para a expansão da produção de biometano, impulsionada pela abundância de resíduos oriundos da agroindústria, pecuária e da gestão de resíduos urbanos. Contudo, transformar esse potencial em produção comercial requer a criação de condições favoráveis.
O estudo enfatiza a urgência de políticas públicas adequadas, acesso a financiamento e melhorias na infraestrutura, visando aumentar a produção, distribuição e utilização do biometano. Avançar nessas áreas é vital para maximizar os recursos disponíveis no país e estabelecer o biometano como uma alternativa credível para a descarbonização do setor de transporte e para a criação de novas cadeias produtivas.
Fonte: Alpha Autos





