Uma pesquisa de doutorado na Unicamp sugere que veículos híbridos que utilizam biocombustíveis, como etanol, podem ter um impacto ambiental mais positivo em comparação aos automóveis totalmente elétricos, dependendo dos cenários considerados. O estudo propõe que a sinergia entre motores elétricos e combustíveis como etanol e biometano é uma estratégia viável para a transição energética no setor automotivo.
Conductado pelo pesquisador Marcelo Antunes Gauto sob a supervisão do professor Gonçalo Amarante Guimarães Pereira, o estudo faz parte do Programa Integrado de Pós-Graduação em Bioenergia, que une a Unicamp, USP e Unesp.
Nos resultados obtidos, constatou-se que um veículo elétrico a bateria pode reduzir as emissões em 61,1% em relação a um carro a gasolina. Em contraste, um híbrido abastecido com etanol apresentou uma redução de 71,2%, enquanto um híbrido que opera com biometano alcançou impressionantes 77,9%.
Análise das emissões ao longo do ciclo de vida
O estudo aplicou a metodologia de Análise do Ciclo de Vida (ACV), que considera os efeitos ambientais e econômicos desde a produção até o descarte dos veículos e dos combustíveis envolvidos.
Foram analisados carros elétricos, híbridos e convencionais a gasolina, além de ônibus urbanos.
Os dados encontrados para veículos leves no Brasil foram os seguintes:
- Carro a gasolina: 269,3 g de CO₂ equivalente por quilômetro;
- Carro 100% elétrico: 104,8 g de CO₂ equivalente por quilômetro, com redução de 61,1%;
- Híbrido com etanol: 77,5 g de CO₂ equivalente por quilômetro, redução de 71,2%;
- Híbrido com biometano: 59,5 g de CO₂ equivalente por quilômetro, redução de 77,9%.
Os dados revelam que, dentro dos critérios analisados, os modelos híbridos alimentados por biocombustíveis emitem menos do que os carros elétricos a bateria.
Impactos da produção de baterias
Outra questão levantada pela pesquisa é o impacto ambiental gerado na fabricação das baterias, que requer a extração de minerais como lítio, manganês e cobalto. Esses processos, por sua vez, acarretam significativos impactos ambientais.
Gauto sugere que, ao invés de baterias maiores, seria mais eficiente utilizar quantidades menores de minerais em um maior número de veículos híbridos. Esses carros têm a capacidade de regenerar parte da energia durante as frenagens, o que pode ajudar na redução do consumo de combustível.
Essa abordagem, segundo o pesquisador, ampliaria a eficiência energética da frota sem aumentar substancialmente a extração de minerais essenciais.
A pesquisa também considera os impactos das emissões geradas pela produção da eletricidade consumida pelos veículos. Mesmo que os carros elétricos não emitam poluentes pelos escapamentos, a Análise do Ciclo de Vida contabiliza as emissões geradas desde a geração de energia até a fabricação das baterias e a cadeia logística.
Oportunidades para o Brasil com biocombustíveis
O estudo enfatiza que o Brasil possui uma vasta experiência na produção de etanol e biocombustíveis, além de uma matriz elétrica baseada em fontes renováveis. Conforme os pesquisadores, unir essas capacidades com a eletrificação de veículos pode propiciar um avanço tecnológico na área e maximizar a infraestrutura de abastecimento já disponível.
Entretanto, a transição para uma frota totalmente elétrica traz desafios, como a necessidade de aumentar a capacidade da rede elétrica, incluindo transformadores, linhas de transmissão e sistemas de controle.
Dentro desse contexto, o pesquisador propõe a bioeletromobilidade, que une a tração elétrica e o uso de biocombustíveis sustentáveis.
Crítica à abordagem europeia
A pesquisa também se relaciona com a estratégia da Europa de reduzir poluentes no setor automotivo. Embora a eletrificação total tenha sido promovida como uma solução para diminuir a poluição e a dependência de combustíveis fósseis, a fabricação de baterias e a disponibilidade de minerais críticos suscitam debates sobre os impactos dessa mudança.
Os autores defendem que a experiência brasileira com biocombustíveis deve contribuir para uma abordagem que integre várias tecnologias, em vez de depender unicamente de veículos elétricos a bateria.
Entretanto, é importante que esses resultados sejam interpretados considerando os cenários e premissas da análise. O desempenho ambiental de cada tecnologia é influenciado por fatores como a fonte de eletricidade, a produção dos biocombustíveis, a capacidade das baterias e o ciclo de vida dos veículos.
O estudo foi publicado na revista Energy for Sustainable Development sob o título Hybrid vigor: Why hybrids with sustainable biofuels are better than pure electric vehicles.
Fonte: Portal Hortolândia





